quarta-feira, 18 de março de 2015

Língua, Literatura, Ensino: uma resposta a Ana


Querida Ana,

Você levanta alguns questionamentos interessantes sobre o papel que desempenhamos na sala da aula e, especificamente, sobre nosso papel enquanto professores de componentes curriculares específicos. Gostaria, contudo, de me deter um pouco sobre o ensino linguístico e literário na escola, já que ambos partilhamos dessa experiência.

Você já parou para refletir sobre suas próprias experiências e habilidades linguísticas? Por exemplo, como foi sua experiência estudando português ou inglês na escola e na educação superior? Você já teve a oportunidade de experienciar a língua – seja o português ou o inglês – num ambiente cultural diferente do seu? E qual o seu conhecimento sobre os processos cognitivos que se efetuam para que aprendamos uma língua, por exemplo? Penso que quando trabalhamos com o ensino de línguas, incluindo línguas estrangeiras, refletir sobre nossas próprias experiências pode abrir o caminho para que reflitamos sobre as experiências dos estudantes aos quais ensinamos.

No que tange ao português, uma das possíveis razões que poderíamos apontar para que o ensinemos na escola é, simplesmente, o fato de que esse é um direito dos estudantes. E, em minha opinião, esse direito se refere não apenas a aprender a chamada norma-padrão da língua (que muitos reduzem à perspectiva que abraçam de “gramática”) na escola, mas a compreender e apreciar, também, o papel da variação linguística em nossa vida social. É importantíssimo lembrar que cada estudante – na realidade, cada um de nós – pertence a várias comunidades linguísticas simultaneamente, ao mesmo tempo em que possui um repertório linguístico unicamente seu (aquilo que chamamos de “idioleto”). Assim, por exemplo, meu uso linguístico reflete minha herança cultural, meu ambiente social e, principalmente, meu mundo interior: i.e., se você acompanhar minha fala e minha escrita, perceberá que a maneira como faço uso da língua tem características próprias, distintas daquelas de outras pessoas; e o mesmo ocorre com você mesma e com aqueles a quem ensina.

Todas as vezes que converso com um estudante de Letras ou com um professor de língua portuguesa, questionando-o sobre as razões que o levaram a se engajar na área, ouço respostas semelhantes. Geralmente, a razão apontada é seu amor à Literatura. A maioria daqueles com os quais converso (sei que não é o caso de todos os outros) aponta seu amor pela leitura como a principal razão por haver escolhido estudar e ensinar português. Ser formado em Letras, assim, significaria se engajar com Literatura – o que não deixa de ser uma redução exagerada tanto do papel do professor de língua quanto do próprio campo de estudo.

O problema com essa visão do “amor à Literatura”, entretanto, é que, na maioria das escolas brasileiras, o papel desempenhado pelo estudo literário é deveras reduzido. Some-se a isso o fato já conhecido de a maioria das escolas não possuir uma biblioteca bem suprida de livros literários básicos. Logo, alguém que resolve se tornar professor de língua portuguesa, por conta desse suposto amor à Literatura, terá oportunidades muito reduzidas para se dedicar ao ensino de Literatura nas escolas da educação básica – o que é uma infelicidade para qualquer profissional da área.

Em se tratando do ensino de Literatura, entretanto, há outros obstáculos a serem considerados e que podem nos ajudar a refletir sobre seu ensino-aprendizagem na escola. O principal deles diz respeito à própria “natureza” da escrita literária. Os autores dos textos literários não os compuseram para que os mesmos fossem estudados na escola. Então, por que os alunos são forçados a estudá-los nas aulas de português ou Literatura, sem que consideremos sua (falta de) habilidade em lidar com textos literários, especialmente os clássicos? Por que esperar que estudantes – muitas vezes advindos dum background sociocultural no qual a leitura não se faz presente – do Ensino Médio, por exemplo, consigam lidar com textos de Machado de Assis (escritor por cujas obras sou apaixonado), quando sequer tiveram contato com textos literários de sua própria época previamente?

Em muitos países, uma alternativa é a apresentação da literatura clássica de forma simplificada, nas séries fundamentais, para então apresentar as composições originais mais tarde na escola. Isso pode ser muito vantajoso em certos contextos. No Brasil, entretanto, o ensino literário é ainda encarado de forma deveras tradicionalista – o que dificulta o letramento literário da maioria dos estudantes que, reconheçamos, não tem acesso aos livros. É só lembrar do que ocorreu no ano passado, com a polêmica sobre o projeto de Patrícia Secco oferecer uma versão “simplificada” de “O Alienista” de Machado de Assis. Seus críticos, que provavelmente vivem numa realidade sociocultural bem distinta daquela da maioria das crianças e adolescentes brasileiros, foram impiedosos em muitos de seus comentários nos meios de comunicação. Para eles, só haveria uma porta para o universo da Literatura: o texto tal como foi composto – independentemente de quantos seriam deixados de fora!

Aquela questão pode nos fazer pensar sobre inúmeros temas, que têm uma relação com a forma como vemos o problema: nossa visão de humanidade, nossa visão política, nossa visão do processo de ensino-aprendizagem, nossa visão do papel da escola, nossa visão dos papeis desempenhados pela escrita e pela Literatura, nossa visão linguística, e tantos outros pontos. Quando ensinamos, seja lá qual for o componente curricular, carregamos conosco um universo inteiro de conceitos e preconceitos que terão um impacto sobre a forma como desempenhamos nosso papel pedagógico. Assim, o que fazemos e o que deixamos de fazer, a maneira como nos relacionamos com estudantes e outros professores, a forma como ensinamos e aquelas formas que rejeitamos utilizar em nosso ensino, etc, têm uma origem nos conceitos e preconceitos que abraçamos.

Seja como for, por mais que a visão que abraço seja, na prática, rejeitada pela maioria de meus colegas, me oponho abertamente aos elementos residuais de elitismo ossificado em nossos sistemas de ensino e testagem. E isso se aplica não apenas ao ensino linguístico e literário, como a todos os demais componentes curriculares de nossas escolas.

Agradeço por seus comentários e participação no fórum.

Grande abraço!

Gibson